Comunismo x Ditadura

*Nicácio da Silva
O Brasil é repleto de fatos distorcidos da realidade, notadamente, nos deparamos com os acontecimentos fora do contexto histórico. Graças a mídia brasileira que sempre buscou ocultar sua participação antes dos piores desfechos políticos e sociais de nossa recente história.
O regime político que se instalou de 1964 a 1981 ficou denominado de "ditadura militar". Porém, o nosso exercício de memória é vago sobre as condições que se deram para sua instituição. Sobre contradições dos atos praticados durante tal regime, numerosas evidências e interesses diferentes dos que participaram foram relegados ao esquecimento.
Notadamente, não podemos deixar que nossa memória nos traia. Tudo o que se tem dito e escrito sobre a ditadura nos leva a crê, que os anos de incessante terror foi fruto de militares descompromissados com a ordem pública e social e que contou, nos primeiros momentos, com o apoio da ampla frente política e da sociedade brasileira.
Esta memória truncada da vida nacional em nada contribui para compreensão da história política do País e particularmente, da própria ditadura. Não podemos esconder a participação de certo segmento empresarial, dos jornais e da população que motivaram à instauração da ditadura de 64.
Em Manaus como na maioria das capitais brasileira, pouca ou nenhuma pessoa que vivenciou aqueles dias, teve conhecimento dos fatos que levaram ao regime. Por um acaso alguém lembra ou já ouviu falar na “Marcha da família com Deus pela liberdade” em 19 de março de 1964, que mobilizaram milhões de pessoas, de todas as classes sociais em São Paulo e que eram contra o governo de João Goulart?
Acredito que não. Pois essa foi uma das manifestações populares que teve incentivo da grande mídia brasileira (Folha de S. Paulo, Estadão, Globo, Gazeta e outras), em reação as Reformas anunciadas pelo próprio presidente Goulart em comício uma semana antes no então Estado da Guanabara para uma plateia de mais de 300 mil pessoas.
Reformas essas, que para a igreja, empresários, imprensa, governadores como Carlos Lacerda do Rio de Janeiro, Magalhaes Pinto de Minas Gerais e Ademar de Barros de São Paulo, seriam prejudiciais para Nação e para população, uma vez que eram de ideias puramente comunista, tendo o total apoio do governo americano, que dispôs a colocar todo seu aparato militar, caso Goulart existisse em permanecer na presidência.
Qual era o verdadeiro significado do sistema socialista que Goulart queria implantar no País? E o comunismo o que seria? Verdade é que poucos sabiam o significado da palavra e a forma política de aplicação. O que se sabe é que eram associadas a tudo que de mal existia e pudesse fazer. Mais não foi divulgada a atitude patriota de João Goulart, que deixou o governo para não ver milhões de brasileiros mortos em uma guerra civil.
Na política brasileira, o tiro sempre sai pela culatra, lideranças políticas da época aceitaram e quiseram que os milicos fizessem o trabalho sujo de prender e cassar os cabeças do movimento comuna, que eles tinham como inimigos políticos, tinham que eliminar seus líder João Goulart, Brizola, Miguel Arraes e outros. Só que não contavam com o gostar dos generais pelo poder. E ficou por muito tempo, o sonho da retomada do jogo político tradicional, deixando-os de fora por 21 anos e, muitos dos que os apoiaram, provaram do gosto amargo da prisão e da cassação.
Para os que rejeitaram a ditadura, fossem radicais, moderados, reformistas ou revolucionários, sofreram o peso da repressão. No entanto, a maioria dos brasileiros apoiava a ditatura. E o comunismo entraria mesmo no Brasil?
O que se tem certeza e está gravado na história da Pátria, é que os ditadores fizeram o que fizeram com a benção da população brasileira, que se evidenciou logo após o golpe, dia 2 de abril na “Marcha da Vitória” com mais de 1 milhão de pessoas na Avenida Paulista em São Paulo.
Esta é uma história narrada por quem também tinha uma visão contrária.
*Escritor

