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Judeu fugiu do Holocausto, treinou o São Paulo e influenciou Brasil de 58

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SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - O uruguaio Diego Aguirre foi o único técnico estrangeiro a trabalhar no último Campeonato Brasileiro. Uma nova -e já fracassada- tentativa do São Paulo de emplacar um técnico estrangeiro, como aconteceu recentemente com Edgardo Bauza e Juan Carlos Osorio.

Quem vê o insucesso frequente de gringos no clube nos últimos anos talvez não saiba, mas há pouco mais de 60 anos, um forasteiro chegou a estas terras para inovar não só o futebol tricolor, mas o futebol brasileiro.

O húngaro Béla Guttmann (1899-1981) está na história como o técnico que conquistou o bicampeonato da Liga dos Campeões com o Benfica, em 1961 e 1962.

Porém, de acordo com quem pesquisou a fundo a vida desse homem nascido em Budapeste ainda no século 19, seu primeiro grande passo rumo à glória na carreira foi dado no São Paulo, em uma parceria que não beneficiou apenas os tricolores, mas a seleção brasileira que conquistaria o primeiro título mundial em 1958, na Suécia.

"Acho que a experiência no Brasil foi um grande impulso na sua carreira e marcou o início de sua era dourada", diz à reportagem o britânico David Bolchover, autor da biografia "Béla Guttmann: De Sobrevivente do Holocausto a Glória do Benfica", publicada este ano em Portugal.

"Quando ele chega ao São Paulo em 1957, seu único grande sucesso havia sido na Hungria no início da década de 1930 e depois da Segunda Guerra no Újpest (HUN). Vencer o Campeonato Paulista fez ele ser conhecido em Portugal", diz Bolchover.

Em uma época na qual o Campeonato Paulista tinha enorme peso, Béla Guttmann comandou o São Paulo no título estadual daquele ano, que contava com figuras de destaque no elenco como o goleiro argentino Poy, o camisa 10 Zizinho e o ponta Canhoteiro.

Na final, bateu o Corinthians por 3 a 1 antes que as arquibancadas do Pacaembu virassem cenário de guerra em jogo que ficou conhecido como "Tarde das Garrafadas".

Guttmann dava ênfase a trabalhos táticos e treinos de fundamentos. Durante essas atividades, no mesmo estilo que Telê Santana empregaria na década de 1990, tentava mostrar aos atletas, na prática, como fazer os exercícios.

Era também uma forma de driblar a língua. Paulo Planet Buarque, histórico conselheiro são-paulino, conta que uma de suas principais recomendações aos jogadores era o "Pá, pá, pá, pum!", maneira que ele encontrou de expressar que queria toques rápidos e chegada veloz ao gol adversário.

"Ele era conhecido como um passador muito preciso. Zagueiro, era pequeno para jogar na posição, mas sua habilidade e inteligência para ler o jogo compensavam seu tamanho", afirma Bolchover sobre a pesquisa que fez da carreira de Guttmann como atleta.

Vicente Feola, que fazia parte da comissão técnica são-paulina durante a passagem do húngaro, se nutriu de vários de seus ensinamentos para comandar o Brasil que conquistaria, em 1958, a Copa do Mundo. Inclusive, com o esquema que herdou do mestre, o 4-2-4.

Judeu, Béla Guttmann sofreu no fim da década de 1930 com o crescimento do antissemitismo na Europa. Na Hungria, leis que limitavam os direitos dos judeus eram aprovadas, tornando a vida no país ainda mais difícil.

"Como consequência, Guttmann perdeu seu trabalho no Újpest em 1939, mesmo tendo vencido a liga húngara. Entre maio e julho de 1944, 437 mil judeus foram levados a Auschwitz. Guttmann se escondeu no sótão de um salão de cabeleireiros em Újpest. Depois, se viu em um campo de concentração no entorno de Budapeste. Ele escapou pulando de uma janela junto de cinco outras pessoas", revela Bolchover.

Antes da publicação da biografia, a versão mais reproduzida da vida de Guttmann no período dava conta de que o treinador havia passado os anos da ocupação nazista como refugiado na Suíça, gozando de certa tranquilidade.

Mas a principal história que David Bolchover desmistifica em seu livro é a da maldição de Béla Guttmann ao Benfica.

Bicampeão da Liga dos Campeões, o húngaro solicitou à diretoria do clube português um aumento de salário, que foi negado. A lenda conta que, extremamente irritado, Guttmann afirmou que, sem ele, o Benfica não ganharia "nenhuma competição europeia nos 100 anos seguintes".

A tal maldição ganhou força recentemente, com dois vices seguidos do time português na Liga Europa, em 2013 e 2014. Mas Bolchover, segundo sua pesquisa, diz que não foi bem assim.

"O Centro de Documentação e Pesquisa do Benfica compilou um documento para mim com a história da maldição. Não há evidência de que Guttmann realmente tenha dito as famosas palavras sobre não vencerem a Liga dos Campeões de novo. O que podemos dizer é que ele estava bem bravo após deixar o Benfica por não ter recebido a recompensa financeira que ele acreditava merecer", completa.



"The Greatest Comeback"

David Bolchover, Biteback Publishing

320 páginas / $ 21,15 (capa dura) / $ 9,10 (Kindle)

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